Por: Manoel Gomes
A REPRESENTAÇÃO DO MUNDO REAL É MUITO COMPLEXA. HÁ MUITOS FATORES COM CARACTERÍSTICAS PRÓPRIAS ENVOLVIDAS EM PROCESSOS FÍSICOS, QUÍMICOS E BIOLÓGICOS. EM RAZÃO DISSO É NECESSÁRIO UTILIZAR METODOLOGIAS, COMO A MODELAGEM MATEMÁTICA, QUE AUXILIAM NA QUANTIFICÇÃO DESSES FATORES CONTROLANTES.
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A modelagem matemática ambiental. |
(HÍDRIA)- As situações reais são em geral muito complexas para serem representadas na sua totalidade, pois há uma vasta gama de elementos e fatores envolvidos em muitos processos físicos, químicos, e biológicos, que dificultam em muito uma análise quantitativa dos sistemas envolvidos.
Tomemos como exemplo o ciclo hidrológico em bacias hidrográficas, sempre possível de representar em termos de modelos de fluxos e armazenamentos, como o representado na Figura 01.
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Figura 01 |
Repare que toda entrada (input) de água no sistema bacia hidrográfica, se dá pela interceptação da precipitação dentro de seus limites, porém, a saída (output) dessa água do sistema é controlado por vários fatores, como a cobertura vegetal, a superfície topográfica, os solos e os aquíferos subterrâneos (Figura 02).
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| Figura 02 Representação dos fatores que influenciam as características do escoamento numa bacia hidrográfica. |
Cada um desses fatores, têm seus comportamentos organizados por processos físicos característicos, por exemplo, a retenção em solos e águas subterrâneas envolvem características texturais dos solos, como o conteúdo de argilas, siltes e areias, grau de arredondamento e seleção dos grãos, porosidades e permeabilidades.
Perceba então, assim como os solos e aquíferos, cada fator de controle possui suas características próprias e devem ser levadas em conta para que a vazão final na saída, exutório da bacia seja estimada, tornando assim o sistema bacia hidrográfica bastante complexo.
A complexidade pode tornar-se maior, se inserirmos modificações no sistema como cultivos e irrigações, urbanizações e alterações nos canais, etc. Considere também, que até mesmo modificações nos regimes de chuvas devido a mudanças climáticas estão entre esses fatores.
O estudo e gerenciamento de todos esses fatores são de caráter multidisciplinar e devem levar em conta várias alternativas de planejamento, considerando as disponibilidades e usos presentes e futuros.
Em razão da quantidade de fatores e respectivas características, modificações, disponibilidades e usos ao longo do espaço e do tempo, é necessário utilizar metodologias que melhor quantifiquem esses fatores controlantes para auxiliar nas etapas de análises de alternativas e na tomada de decisão.
Essas alternativas envolvem a modelagem matemática aplicada aos sistemas ambientais, como no nosso exemplo, para uma bacia hidrográfica.
Uma definição de modelo e usos
Um modelo é definido como uma representação simplificada do sistema real que se deseja analisar. É feita através da representação de algum objeto ou sistema em alguma linguagem de fácil acesso e uso, com o objetivo de entendê-lo e buscar respostas perante diferentes entradas.
Repare que quanto mais fatores controlantes existirem e interagirem, mais complexos os sistemas e, consequentemente, serão mais desafiadores.
A Figura 03 nos mostra um cenário natural já bastante alterado devido às intervenções e atividades humanas, como edifícios em zona urbana; emissão de gases por indústrias; captação de água para abastecimento público, recarga induzida de aquífero; e lançamento de efluentes no rio.
Figura 03 |
Repare que os impactos alteram não só características físicas desses compartimentos, como o escoamento superficial em direção à drenagem do rio, fluxo das águas subterrâneas, e comportamento dos ventos nas zonas urbanas e rurais, mas também alteram características químicas, como a qualidade do ar, dos solos, e das águas superficiais e subterrâneas.
Repare ainda, que para complicar esse cenário, há humanos expostos a todos esses aspectos: emissões atmosféricas, lançamentos de efluentes e resíduos, que impactaram as características físicas e químicas originais do cenário ambiental.
Todos esses aspectos ambientais possuem substâncias químicas que podem tornar-se móveis e transportadas pelo ar, solo, e pelas águas superficiais e subterrâneas, até as populações humanas dispersas nas zonas urbanas e rurais do cenário, e que podem inalar, ingerir, ou expostas ao contato dermal com as diversas substâncias químicas mobilizadas.
Diante do cenário apresentado temos diversas perguntas para serem respondidas com o objetivo de garantir à saúde da população aos impactos decorrentes das diversas intervenções nos compartimentos ambientais. Essas perguntas podem ser:
- Qual a carga de nutriente que deve ser lançada no lago ou reservatório para reduzir e reverter uma eutrofização crônica e garantir a qualidade da água para consumo da população ?
- Qual é a contribuição devido às fontes industriais e agrícolas num problema de eutrofização ?
- Qual o provável efeito das reduções nas emissões de enxofre e matéria fina particulada para a atmosfera, associado à exposição e impacto na saúde da população ?
- Que efeito estas reduções terão sobre a acidificação de rios e córregos ?
- Que efeitos terão sobre a visibilidade ?
- Quanto tempo a água subterrânea permanecerá contaminada por pesticidas ?
- Quais são as implicações e riscos à saúde humana devido ao consumo de água contaminada por pesticidas ?
- Quais estratégias de remediação levariam a uma redução nestes riscos ?
- Quais produtos alternativos ou design desses produtos resultam na diminuição de impacto ambiental durante seu ciclo de vida ?
Todas estas perguntas levantadas pelas indústrias, comunidades, e fiscalizadores têm como objetivos determinar o tempo e como implementar os programas e controles ambientais.
Os modelos ambientais podem desempenhar um papel importante nas quantificações e análises em respostas a estas perguntas, e, juntamente com estudos de campo e laboratoriais, podem fornecer um melhor conhecimento, na busca do melhor gerenciamento da qualidade e sustentabilidade ambiental.
Nesse contexto, em conjunto com as observações de campo, métodos de amostragens, e análises laboratoriais, os modelos podem ser vistos como testadores de perguntas, ou seja, hipóteses decorrentes das diversas observações dos cenários propostos.
Idealmente, as observações, e a modelagem contribuem ainda para direcionar os estudos aos melhores pontos de amostragem para análises laboratoriais. Nesse sentido servem para melhorar a retroalimentação dos dados ambientais e garantir refinamentos e incertezas nas análises de alternativas propostas.
Um modelo não pode ser tratado como um objetivo, mas como uma ferramenta para atingir um determinado objetivo. Sendo assim, pode ser usado para fins de (i) previsão; (ii) entendimento dos processos; (iii) preenchimento de variáveis de interesse em um período sem levantamentos; e (iv) geração de hipóteses.
Portanto, pode ser utilizado para melhor entender o comportamento de um sistema e antecipar eventos, quantificando impactos de um determinado distúrbio ou anomalias no sistema, antes mesmo que ele ocorra, para que todas as medidas preventivas possam ser tomadas.
Um exemplo de aplicação da modelagem
Considerando o cenário apresentado com as várias intervenções humanas, e questões levantadas, podemos perceber neste estudo de caso, que há para os vários compartimentos ambientas, sequências de eventos em comum que levam a identificação, caracterização, e remediação de um resíduo perigoso. Em geral, pode ser aplicada a seguinte ordem de eventos:
- 1° evento: Identificação de substâncias com potenciais de serem liberadas nos compartimentos ambientais. Isto pode resultar numa rotina de monitoramento das concentrações do poluente numa área, através do conhecimento dos processos industriais da fabricação do poluente numa indústria; de pesquisas que identifiquem as causas de doenças ou quantidade de câncer numa comunidade; ou durante um estudo de avaliação impacto ambiental.
- 2° evento: Identificação de fontes potenciais ou suspeitas de contaminação. A fonte de um poluente é identificada num resíduo perigoso de uma indústria, ou um vazamento teórico pode ser simulado.
- 3° evento: Uso de um modelo de fluxo e transporte de contaminantes. É feita a modelagem ambiental para determinar quais concentrações atingirão áreas específicas de uma região ao longo do tempo, considerando em especial os receptores humanos expostos a essas concentrações.
- 4° evento: Análise dos resultados. Os resultados da modelagem, como a distribuição das concentrações na região de interesse ao longo do tempo, são usados nos cálculos de avaliação para estimar os riscos à saúde humana.
- 5° evento: Tomada de decisão.
Um plano de remediação é negociado entre os cidadãos, órgãos fiscalizadores e as partes responsáveis pelos resíduos perigosos.
As vantagens da aplicação de modelos
Se usarmos a modelagem como uma representação de alguma realidade, teremos algumas vantagens, como:
- É mais barato analisar um sistema com o uso de modelos do que uma análise de um sistema em escala real.
- O custo de cometer erros e/ou realizar experiências em um sistema em escala real é muito maior do que o custo da exploração intensiva num modelo.
- Os processos de tentativa e erro podem ser explorados intensivamente, sendo assim, são ferramentas de aprendizado para a compreensão do sistema, concepção de novas idéias, e linhas de ação.
- Conferem flexibilidade às análises porque é possível “encurtar” o tempo, ou seja, permitir que muitos anos sejam analisados em tempos extremamente curtos.
- Diferentes alternativas podem ser analisadas muitas vezes mediante simples alterações de parâmetros.
- Pode ser útil quando muitas alternativas precisam ser comparadas a partir de uma única base de dados, de modo que, apesar dos dados numéricos não serem necessariamente exatos, os resultados comparativos podem mostrar que uma alternativa é superior às demais, e geralmente válida.
Sobre resultados imperfeitos e incertezas
Modelar e simplificar são conceitos indissociáveis. Como o processo de modelagem simplifica a realidade, haverá prejuízo da representatividade, e se levada a níveis inadequados pode comprometer a utilização do modelo para os objetivos pretendidos.
As simulações são respostas de simplificações de sistemas reais complexos, e portanto, os resultados já são naturalmente imperfeitos. Quanto menos informações disponíveis, maiores são as incertezas dos prognósticos resultantes dos modelos.
Por outro lado, os dados também permitem aferir os modelos matemáticos e reduzir as incertezas da modelagem na estimativa das variáveis de interesse. Atualmente, os modelos são componentes essenciais nos sistemas de suporte de dados, ou seja, a utilização de modelos é o que diferencia um sistema de suporte às decisões de um simples banco de dados.
Isso significa que a modelagem e o monitoramento devem caminhar juntos rumo ao diagnóstico mais preciso dos efeitos sobre um sistema de um determinado fenômeno.
As metodologias apresentadas na nossa disciplina são baseadas na representação do sistema físico por meio de modelos estabelecidos por funções matemáticas, empíricas e conceituais. É por exemplo, assim que é modelamos parte do ciclo hidrológico, hidrodinâmico, químico e biológico.
Através da utilização de um modelo para análise de um projeto, o analista fica mais próximo da realidade física, resultando numa solução mais econômica e segura. O julgamento desse processo físico é indispensável ao analista em qualquer fase da utilização do modelo, pois a análise das alternativas de uso e a conclusão dos resultados devem ser elaboradas para que o modelo tenha real utilidade.




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