Por: Manoel Gomes
A EVOLUÇÃO DA MODELAGEM AMBIENTAL AO LONGO DOS ANOS PERMITIU O ACESSO DE UM NOVO PERFIL DE USUÁRIOS.
(HÍDRIA)- A EVOLUÇÃO da modelagem pode ser dividida em fases relacionadas ao interesse social e a capacidade computacional da época. Os primeiros trabalhos de modelagem apareceram em meados da década de 1920 com Streeter & Phelps em 1925 no rio Ohio, que focava a avaliação dos níveis de oxigênio dissolvido (OD) em rios e estuários.
 |
Os problemas de interesse social contribuíram para o início da modelagem em sistemas ambientais. |
 |
O lançamento de esgotos em rios já era um problema de interesse social no início de século XX. |
Ainda sem computadores, as aplicações limitavam-se as soluções lineares, com geometria simples, e considerando um estado permanente no tempo.
 |
O trabalho precursor foi de Streeter & Phelps em 1925, que focava a avaliação dos níveis de oxigênio dissolvido (OD) em rios e estuários. |
Do ponto de vista histórico é importante entender que os modelos desenvolvidos nos últimos 40 anos foram influenciados por modelos físicos e elétricos analógicos, que os precederam nos anos 50 e 60.
 |
Durante a
II
Guerra Mundial foi desenvolvido o
ENIAC (1943), que
pesava 30 toneladas
e tinha 5,5 metros de altura, 2 5 metros de comprimento, 70 mil resistores e 17.468 válvulas.
|
Os primeiros esforços com modelos físicos de real interesse apareceram nos anos 50 e tratavam principalmente de fluxo de água subterrânea. Construiam-se caixas de areia ou placas de vidro paralelas, denominadas Hele-Shaw, onde injetavam-se traçadores coloridos e o movimento da água subterrânea era estudado pela observação da sua trajetória através desses arranjos geológicos simples, tais como lentes permeáveis e brechas de falha.
 |
Caixa de areia com injeção de traçadores coloridos.
|
 |
Representação por um bloco diagrama de um modelo conceitual mostrando o fluxo de água subterrânea a partir da zona de recarga até descarga no córrego. |
Esses modelos físicos foram rapidamente sucedidos por modelos elétricos baseados na analogia entre a lei de Ohm para o fluxo de eletricidade, e a lei de Darcy para o fluxo de água subterrânea em meios porosos. Através do uso de grandes placas com resistores e capacitores, o fluxo de água subterrânea em grandes sistemas aquíferos poderia ser simulado.
 |
Modelo com
resistências elétricas. |
Estes modelos analógicos eram muito populares nos anos 60, mas em meados dos anos 70 foram substituídos por modelos digitalizados para computadores. Modelos físicos e elétricos analógicos eram essencialmente modelos de fluxo, e o movimento de contaminantes em água subterrânea raramente era estudado.
Modelos de caixas de areia ainda são excelentes para ilustrar visualmente o comportamento das águas subterrâneas, atualmente seu uso é restrito a cursos universitários e a aplicações ocasionais no estudo de migração complexa de contaminantes, como as exibidas por DNAPLs (Dense Non-Aquous Phase Liquid, ou fase líquida densa não aquosa).
 |
O Pres.Juscelino Kubitschek, inaugurou em 13 de junho de 1960 com presença do futuro Papa Paulo VI, Cardeal Giovanni Battista Montini, o Centro de Processamento de Dados da PUC Rio, com o primeiro computador de grande porte para uso acadêmico do Brasil, um Burroughs B205 (24kb).
|
Na década de 1960, os computadores apareciam como ferramenta disponível, e levou ao avanço dos modelos e potencial de aplicação. No caso de ecossistemas aquáticos, o oxigênio ainda era o foco, mas os computadores já permitiam resolver problemas mais complicados, com geometrias mais complexas, maior detalhamento das reações cinéticas, e simulações não permanentes no tempo (simulações dinâmicas).
No final dos anos 60 e início dos anos 70, os computadores digitais de grande porte (mainframes) eram bastante disponíveis, e os primeiros modelos de computadores sofisticados para fluxo de água subterrânea e transporte de contaminantes começaram a surgir.
Em geral, os esforços de modelagem digital foram feitos por modeladores profissionais que escreviam seus próprios programas em FORTRAN, chamados de papas pelos não modeladores; e embora outros profissionais de águas subterrâneas pudessem, em princípio, utilizar tais programas, estes raramente eram fáceis de serem usados ou suficientemente flexíveis para serem largamente usados por não modeladores.
Durante os anos 60 e 70, a computação permaneceu centralizada fisicamente em computadores de grande porte, isolados em salas com ar condicionado, onde operadores em aventais brancos recebiam programas em FORTRAN, perfurados em cartões de 80 colunas, que posteriormente iriam alimentar uma leitora de alta velocidade.
Para grandes programas, o tempo de espera era muitas vezes da ordem de horas, o que tornava a sua correção um processo frustrante e lento.
|
|
Exemplo de cartão perfurado de programação FORTRAN.
|
O computador de grande porte era mantido inacessível pelos seus administradores, e os usuários comuns raramente o viam, e nunca eram capazes de tocá-lo de fato.
 |
A IBM surgiu e passou a dominar o mercado de mainframe por décadas. O System 360 foi lançado em 1964, e é considerado por alguns, o computador de grande porte mais bem sucedido de todos os tempos. |
Os profissionais de águas subterrâneas não matemáticos, que não sabiam como programar em FORTRAN, raramente chegaram a executar eles próprios uma modelagem nestas duas décadas (1960 – 1980), marcadas pela centralização da computação de grande porte.
Movida pela consciência ambiental, os problemas de oxigênio dissolvido e de fontes pontuais davam espaço para problemas de eutrofização em ecossistemas aquáticos e, então, foram desenvolvidos os primeiros problemas que representariam a dinâmica alimentar aquática. No entanto, agora, já com o avanço computacional, poderiam ser empregadas soluções não lineares, retroativas, em sistemas com geometrias complicadas.
 |
Em 2012 a placa do
Apple I do
primeiro
computador da Apple. Feito à mão
por Steve Wozniak, teve
como lance vencedor
US$
374.500. |
Com o aparecimento do primeiro computador pessoal IBM em agosto de 1981, seguido em 1983 pela versão em disco rígido de 10 Megabytes (IBM- PC XT), houve uma verdadeira revolução na modelagem de fluxo de água subterrânea e transporte de contaminantes, que resultou na quebra do monopólio desfrutado pelos papas da modelagem. Nos últimos 30 anos, finalmente a computação tem sido descentralizada, barateada e tornada rápida, tornando-se acessível e útil a todos.
 |
Lançado em 12 de agosto de 1981, o modelo original
recebeu a denominação IBM 5150, com memória 16 a
640kb. |
Hoje, sofisticados modelos de águas subterrâneas e pacotes gráficos são fáceis de usar que mesmo não modeladores podem facilmente aplicá-los. Há alguns anos, para ser um modelador de sucesso, conhecimentos de programação e de matemática eram mais importantes que experiência prática em resolver problemas de águas subterrâneas. Hoje o oposto é o correto.
 |
Exemplo de modelos atuais para sistemas ambientais. |
A evolução dos computadores pessoais em velocidade e capacidade de memória nos últimos anos, juntamente com a ênfase em alta tecnologia aplicada à resolução de problemas práticos em águas subterrâneas, tornaram a modelagem matemática uma escolha natural como ferramenta altamente atualizada de avaliação, projeto e planejamento. Centenas de modelos foram desenvolvidos para o manejo da enorme variedade de aquíferos, rochas e combinações físico químicas específicas que são encontradas no campo. Com o passar dos anos, várias centenas de artigos foram escritos sobre o assunto.
Ao contrário de alguns anos atrás, quando a modelagem matemática era encontrada apenas em artigos de pesquisa, hoje ela tornou-se uma ferramenta rotineira no auxílio a solução de problemas de águas subterrâneas. De fato, é difícil encontrar hoje em dia, um grande projeto em água subterrânea que não utilize de alguma forma a modelagem matemática.
O mais recente estágio do desenvolvimento de modelos voltou-se aos problemas envolvendo substâncias tóxicas, patogênicos e metais pesados, que representam uma grande ameaça à saúde humana e aos ecossistemas aquáticos. Esse problema também é marcado efetivamente pelos debates políticos gerados, mas os problemas passados ainda perduram nos dias atuais, uma vez que o progresso computacional propiciou soluções mais próximas da realidade.
Um modelador ente os anos 70 e 90 era fluente em FORTRAN; expert em métodos numéricos e equações diferenciais parciais; capaz de reduzir facilmente um complexo sistema tridimensional tridimensional para um modelo bidimensional simplificado; pouco experiente em métodos de campo (ex. hidrogeologia, hidrologia, meteorologia); acostumado a manusear pilhas de listagens numéricas; e possuir raciocínio matricial.
Hoje temos uma interface gráfica do usuário totalmente integrada, ou seja, uma modelagem visual. Na modelagem atual os parâmetros que definem o modelo conceitual são definidos interativamente tanto em plantas como em seções ou perfis; a edição dos parâmetros é feita de maneira descomplicada; a interface é intuitiva e de fácil utilização; há aplicativos para auxiliar na calibração; a entrada de dados é integrada com a apresentação gráfica dos resultados.
O estágio atual permitiu acesso de um novo perfil de usuários. Permite que a modelagem possa ser feita por não modeladores, hidrogeólogos, meteorologistas, hidrólogos, etc; e elaborem melhores modelos conceituais; melhoria do entendimento dos resultados; maior eficiência com menores custos para um modelo melhor.
Atualmente, um modelo matemático pode ser comparado ao uso de um automóvel. Diferentemente de quando foram vendidos os primeiros veículos nos anos 10 e 20, para se dirigir um carro hoje em dia, não é necessário o menor conhecimento sobre mecânica. O que conta é a perícia ao volante e o senso de direção.
Do mesmo modo, a modelagem atingiu uma condição onde não é necessário saber sobre a matemática e a programação que estão por trás do modelo. O que conta é como aplicá-lo de forma correta, criativa e produtiva. O futuro promete ainda ser mais excitante para profissionais não matemáticos de águas subterrâneas, com o uso crescente de interfaces gráficas para se inserir dados visualmente através do monitor, como mapas, propriedades geológicas, condições de contorno, fontes, etc.